SUSPIRO
Encantamentos, amuletos e ressonâncias próprias das relações íntimas de amizade celebram um universo sagrado e criado em conjunto que se manifesta em Suspiro, exposição de Bárbara Faden e Rita Paisana. O indício de um desejo veemente revela algo entre um estado de paixão e incômodo - tempestade e calmaria - delineado neste diálogo em meio a entrelaces reluzentes. O encontro da reprodução da natureza com a fantasia e experiência das artistas caracteriza, ao mesmo tempo, uma exposição sensorial e imaginativa1, o aspecto sonhador e por vezes abstrato inspira uma pulsão adolescente, dilemas existenciais e corações derretidos, na intensidade das suas próprias sensações. Raízes emergem e se multiplicam com o passar do tempo, tornando-se cada vez mais complexas, enquanto outros laços são levados pelo vento.
Os portais já são um prenúncio de altares?2
Abrindo espaço para os mistérios da matéria, paisagens submersas e cortinas entreabertas anunciam portais. Em Fireflies blinking on and off (2024), o círculo formado por olhos-gotas acentua a esfera espiritual e o aspecto meditativo das pinturas de grande formato de Bárbara Faden. Um mergulho no azul profundo. Ao refletir sobre a prática da pintura em Água Viva (1973), Clarice Lispector diz estar à procura do instante de uma iminência que a tire o fôlego, uma busca que mantém a chama acesa e a devoção de quem está enfeitiçada. Partilha descobertas, pensamentos, anseios existenciais e interesses pictóricos como num diário escrito a alguém. Um baú de preciosidades guarda em seu interior aveludado a delicadeza de coisa vivida e depois revivida3, como comer um figo direto da árvore e a seguir lamber os dedos, sentindo o estalar do açúcar na contemplação da experiência compartilhada, doce e íntima.
Em Suspiro, elementos em repetição criam um ritmo onde a delicadeza coexiste com a possibilidade de ver as coisas intensificadas, um fascínio que muitas vezes se perde ao longo da vida. Entre as influências de uma conexão profunda e construída com o passar dos anos, símbolos e formas orgânicas se cruzam nesta espécie de dimensão celeste. A atmosfera emocional e imersiva, o brilho do glitter que assinala a obra de Rita Paisana e a profusão de cores nos aproximam do universo das projeções caleidoscópicas de Pipilotti Rist, suas experimentações em videoarte e instalações expandidas. Como ornamentos sensoriais do cotidiano, as vitrines cobertas de glacê e granulado colorido das confeitarias de Lisboa poderiam estar nos planos de Ever is over all (1997) ou I’m a victim of this song (1995), com o grito visceral da artista ao fundo, lembrando o risco de se queimar em fogo alto que faz parte das relações românticas e trazendo, entre efeitos poéticos, a força feminina enquanto alternativa a um sistema desigual.
World was on fire
And no one could save me but you4
1. JUNG, Carl G. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
2. LISPECTOR, Clarice. Água Viva. Rio de Janeiro: Rocco, 2019.
3 Idem.
4. I‘m a victim of this song (1995). Pipilotti Rist e Andreas Guggisberg reinterpretam Wicked Game (1989), de Chris Isaak.
Encantamentos, amuletos e ressonâncias próprias das relações íntimas de amizade celebram um universo sagrado e criado em conjunto que se manifesta em Suspiro, exposição de Bárbara Faden e Rita Paisana. O indício de um desejo veemente revela algo entre um estado de paixão e incômodo - tempestade e calmaria - delineado neste diálogo em meio a entrelaces reluzentes. O encontro da reprodução da natureza com a fantasia e experiência das artistas caracteriza, ao mesmo tempo, uma exposição sensorial e imaginativa1, o aspecto sonhador e por vezes abstrato inspira uma pulsão adolescente, dilemas existenciais e corações derretidos, na intensidade das suas próprias sensações. Raízes emergem e se multiplicam com o passar do tempo, tornando-se cada vez mais complexas, enquanto outros laços são levados pelo vento.
Os portais já são um prenúncio de altares?2
Abrindo espaço para os mistérios da matéria, paisagens submersas e cortinas entreabertas anunciam portais. Em Fireflies blinking on and off (2024), o círculo formado por olhos-gotas acentua a esfera espiritual e o aspecto meditativo das pinturas de grande formato de Bárbara Faden. Um mergulho no azul profundo. Ao refletir sobre a prática da pintura em Água Viva (1973), Clarice Lispector diz estar à procura do instante de uma iminência que a tire o fôlego, uma busca que mantém a chama acesa e a devoção de quem está enfeitiçada. Partilha descobertas, pensamentos, anseios existenciais e interesses pictóricos como num diário escrito a alguém. Um baú de preciosidades guarda em seu interior aveludado a delicadeza de coisa vivida e depois revivida3, como comer um figo direto da árvore e a seguir lamber os dedos, sentindo o estalar do açúcar na contemplação da experiência compartilhada, doce e íntima.
Em Suspiro, elementos em repetição criam um ritmo onde a delicadeza coexiste com a possibilidade de ver as coisas intensificadas, um fascínio que muitas vezes se perde ao longo da vida. Entre as influências de uma conexão profunda e construída com o passar dos anos, símbolos e formas orgânicas se cruzam nesta espécie de dimensão celeste. A atmosfera emocional e imersiva, o brilho do glitter que assinala a obra de Rita Paisana e a profusão de cores nos aproximam do universo das projeções caleidoscópicas de Pipilotti Rist, suas experimentações em videoarte e instalações expandidas. Como ornamentos sensoriais do cotidiano, as vitrines cobertas de glacê e granulado colorido das confeitarias de Lisboa poderiam estar nos planos de Ever is over all (1997) ou I’m a victim of this song (1995), com o grito visceral da artista ao fundo, lembrando o risco de se queimar em fogo alto que faz parte das relações românticas e trazendo, entre efeitos poéticos, a força feminina enquanto alternativa a um sistema desigual.
World was on fire
And no one could save me but you4
1. JUNG, Carl G. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
2. LISPECTOR, Clarice. Água Viva. Rio de Janeiro: Rocco, 2019.
3 Idem.
4. I‘m a victim of this song (1995). Pipilotti Rist e Andreas Guggisberg reinterpretam Wicked Game (1989), de Chris Isaak.
Ana Grebler
BARBARA FADEN (1998, Lisboa)
Bárbara Faden vive e trabalha em Lisboa. Licenciada em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, em 2020, e Master pela KASK & Conservatorium, School of Arts, Ghent, em 2023. Barbara trabalha essencialmente a pintura e desenho entre a figuração e a abstracção. A sua prática explora a ambiguidade das formas, o mundo onírico, os motivos naturais e o mistério. Através da coleção de imagens e de uma abordagem intuitiva, Faden transforma as suas referencias em lugares-sentimento e historias-sonho.
Entre as exposições mais relevantes destacam-se: Magnólia (Mais Silva Gallery, Porto, 2025); O Rumor da Imagem (Centro de Arte Contemporânea de Coimbra, 2024); IV Capítulos (Fundação Carmona e Costa, Lisbon, 2024); Prémio Norberto Fernandes (Fundação Altice, Lisboa, 2024); Lacrimosa (Museu do Teatro Romano, Lisboa, 2024); Suspiro (Salto, Lisboa, 2024); Blind Taste (Arbag, Lisboa, 2024); Pedra Papel ou Tesoura (Alfaia, Loulé, 2023); Sem Chumbo (Museu do Hospital das Caldas da Rainha, 2022); Onde a Fruta Faísca (Atelier Midões, Lisboa, 2022); Casa da Dona Laura Itinerante (Casa do Capitão, Lisboa, 2021); Ciclo da Intimidade (Egeu, Lisboa, 2021); Finalistas de Pintura FBAUL, Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa (2021); Persona (Galeria Ato Abstrato, Lisboa, 2020); Mostra 2020 (Lisboa, 2020); Ida (Casa das Artes de Tavira, 2019); Casa da Dona Laura (3.ª edição, Lisboa, 2017).
Bárbara Faden vive e trabalha em Lisboa. Licenciada em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, em 2020, e Master pela KASK & Conservatorium, School of Arts, Ghent, em 2023. Barbara trabalha essencialmente a pintura e desenho entre a figuração e a abstracção. A sua prática explora a ambiguidade das formas, o mundo onírico, os motivos naturais e o mistério. Através da coleção de imagens e de uma abordagem intuitiva, Faden transforma as suas referencias em lugares-sentimento e historias-sonho.
Entre as exposições mais relevantes destacam-se: Magnólia (Mais Silva Gallery, Porto, 2025); O Rumor da Imagem (Centro de Arte Contemporânea de Coimbra, 2024); IV Capítulos (Fundação Carmona e Costa, Lisbon, 2024); Prémio Norberto Fernandes (Fundação Altice, Lisboa, 2024); Lacrimosa (Museu do Teatro Romano, Lisboa, 2024); Suspiro (Salto, Lisboa, 2024); Blind Taste (Arbag, Lisboa, 2024); Pedra Papel ou Tesoura (Alfaia, Loulé, 2023); Sem Chumbo (Museu do Hospital das Caldas da Rainha, 2022); Onde a Fruta Faísca (Atelier Midões, Lisboa, 2022); Casa da Dona Laura Itinerante (Casa do Capitão, Lisboa, 2021); Ciclo da Intimidade (Egeu, Lisboa, 2021); Finalistas de Pintura FBAUL, Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa (2021); Persona (Galeria Ato Abstrato, Lisboa, 2020); Mostra 2020 (Lisboa, 2020); Ida (Casa das Artes de Tavira, 2019); Casa da Dona Laura (3.ª edição, Lisboa, 2017).
RITA PAISANA (1998, Lisboa)
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Rita Paisana vive e trabalha em Lisboa. Concluiu a licenciatura em Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa em 2021.
O seu trabalho parte da procura em reformular imagens e sensações que não podem ser visualizadas inteiras, e às quais se acede do mesmo modo miúpe a que se acede a memórias parcialmente fabricadas de sonhos. A materialidade, o brilho, os símbolos e elementos kitsch, emotivos e naturais são os temas recorrentes na sua prática.
Desde 2019, participou em várias exposições coletivas, das quais se destacam “Encontros imediatos de segundo grau” na Galeria Avenida da Índia, das Galerias Municipais (2023), “Midnight Sun” na Mono (2023), “A escuridão, pois, também era viva” no Espaço Cultural Mercês (2023), “Spike to Spica” na Galeria Monumental (2023) e “À volta do x” no Pavilhão 31, Centro Hospitalar Júlio de Matos (2022), em Lisboa.
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Rita Paisana vive e trabalha em Lisboa. Concluiu a licenciatura em Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa em 2021.
O seu trabalho parte da procura em reformular imagens e sensações que não podem ser visualizadas inteiras, e às quais se acede do mesmo modo miúpe a que se acede a memórias parcialmente fabricadas de sonhos. A materialidade, o brilho, os símbolos e elementos kitsch, emotivos e naturais são os temas recorrentes na sua prática.
Desde 2019, participou em várias exposições coletivas, das quais se destacam “Encontros imediatos de segundo grau” na Galeria Avenida da Índia, das Galerias Municipais (2023), “Midnight Sun” na Mono (2023), “A escuridão, pois, também era viva” no Espaço Cultural Mercês (2023), “Spike to Spica” na Galeria Monumental (2023) e “À volta do x” no Pavilhão 31, Centro Hospitalar Júlio de Matos (2022), em Lisboa.