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Paulo SerraNem pena nem paixão

17 Out — 22 Nov 2025

Curadoria: David Revés & Nicolai Sarbib

Nem pena nem paixão, de Paulo Serra, inaugura a parceria entre a Salto e a Associação Alfaia, sediada em Loulé, numa iniciativa que estabelece uma colaboração anual entre os dois espaços e uma ponte entre os contextos algarvio e lisboeta, interrogando a relação entre margem e centro, mas também entre territórios, circuitos e agentes artísticos com maior e menor visibilidade. Nesse sentido, o projecto de Paulo Serra (1965, Algarve) adquire um duplo valor simbólico. É o regresso a Lisboa de um artista, a solo, quase duas décadas depois da sua última exposição individual na cidade, e numa das raríssimas ocasiões em que expõe na capital portuguesa, assim como o reencontro com uma prática desenvolvida maioritariamente à margem, em persistente autonomia, desvio e relativa solidão periférica. 

O título desta exposição provém de uma expressão popular algarvia usada frequentemente pela mãe do artista quando lhe perguntavam pelo seu filho: “É um menino que não dá pena nem paixão”. Contudo, esta frase, mesmo procurando descrever alguém tranquilo, que não causa preocupação ou sobressalto, ganhando neste projecto um valor autobiográfico, instala da mesma forma um curioso paradoxo. Contrariando qualquer estado de quietude ou serenidade, o que vemos no trabalho de Paulo Serra é uma obra de grande intensidade plástica, com recurso a distintos suportes, materiais e técnicas, revelando um processo artístico realizado num permanente movimento entre controlo e descontrolo, calma e tumulto, sobriedade e exuberância. 

A selecção de trabalhos reunida em Nem pena nem paixão — relativa sensivelmente aos últimos cincos anos da produção de pintura e desenho de Paulo Serra, e feita entre distintos lugares do território algarvio onde o artista tem vivido a maior parte da sua vida —, dá, por isso, conta da amplitude e densidade dos seus gestos, mas também dos seus interesses, motivos, símbolos e preocupações recorrentes, ora exclusivamente artísticos, ora também existenciais. 

Paulo Serra centra-se, sobretudo, numa exploração das capacidades da representação, particularmente através do autorretrato e de retratos de familiares ou de conhecidos, mas também de paisagens do Algarve. Aí, o artista convoca uma galeria íntima de fantasmas e demónios, assim como de afectividades e intensidades pessoais, que atravessam e tensionam cada obra, construindo um espaço pictural onde se jogam felicidades e tristezas, desejos, angústias ou temores, e se confrontam o palimpsesto da memória, a exaltação e o exorcismo. Entre o humano e o alienígena, o sagrado, o profano e o grotesco, entre o reconhecível e o indeterminado, os rostos de Paulo Serra, tal como as suas paisagens, revelam-se permeáveis, contaminados permanentemente pelo que os rodeia ou o que poderiam ser, como se o acto de pintar e desenhar procurasse um ponto de contacto entre o interior e o exterior. 

Uma última nota para as breves inscrições que vão surgindo em alguns trabalhos e que, reforçando uma dimensão reflexiva, e também uma brecha entre imagem, mundo e linguagem, revelam ainda um certo tom humorístico ou trágico-cómico na atitude e trabalho de Paulo Serra: indícios de uma consciência crítica sobre o próprio acto de representar e existir, mas também entre a recordação, a vontade e a matéria, esta que se sempre se mostra, e é pelo artista aceite e explorada, na sua qualidade intempestiva e contingencial.  


David Revés & Nicolai Sarbib
PAULO SERRRA (n. 1965, Algarve)

Paulo Serra vive e trabalha em Faro. Iniciou os seus estudos em pintura na FBAUL, mas regressou ao sul, onde fez do Algarve a sua escola. Expôs pela primeira vez em 1995 na Galeria Margem (Faro), seguindo-se outras mostras individuais e coletivas, em especial com a Associação de Artistas do Algarve. Participou na Bienal Algarve/Andaluzia (1999), expôs no Hospital Júlio de Matos (2004) e na Galeria Rosalux, em Berlim (2005). Trabalhou com a Galeria Bernardo Marques (2008–2014) e integrou exposições na Galeria 111, no CIAJG (curadoria de Nuno Faria), na Fidelidade Arte e na Culturgest Porto (ambas com curadoria de David Revés. Ligado à Associação 289 e ao coletivo Artadentro, tem participado em projetos em espaços como a Galeria Trem ou o Museu de Faro. Em 2024, realizou a exposição Da Vontade de Fazer Um Pássaro, com curadoria de Miguel Cheta, na Galeria Praça do Mar, Quarteira.




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