Viaticum é a primeira exposição individual de Eva Gaspar e o culminar de uma extensa investigação que a artista tem desenvolvido em torno da religião, do corpo físico e de corpos espirituais, assim como de memórias familiares e da memória colectiva portuguesa. Apropriando uma palavra pertencente aos ritos católicos, que diz respeito ao último sacramento conferido no leito de morte, em Viaticum Eva Gaspar procura questionar os processos de fim de vida e a intimidade das experiências de perda e luto, propondo modos especulativos — mais positivos e alegres — de lamento e reconciliação, mas também de comunhão transformadora.
Na origem deste projecto está um episódio familiar revelado a Eva Gaspar pela sua mãe, no qual descobre que a avó guardara, durante vários anos, numa pequena caixa, um osso do pé do seu falecido marido, avô da artista. Um gesto que fora vivido na família como algo herético ou escandaloso, mas onde Eva Gaspar reconhece um radical acto de amor e de devoção. Tal como as relíquias existentes nos espaços de culto católicos — objectos que, através de pequenos indícios materiais, operam uma ponte com uma dimensão divina e intangível —, também aquele fragmento do avô da artista funcionava como ligação directa a um corpo ausente, instaurando uma forma íntima e pessoal de espiritualidade e relação com um ente querido.
Infelizmente, esse objecto tornado sagrado pela sua avó já não existe, o que motivou Eva Gaspar, perante essa perda definitiva e consequente transformação numa espécie de mito familiar, a iniciar um processo de remediação simbólica que dá origem a Viaticum. Nesta exposição, outras relíquias íntimas, mas também gestos de partilha relacional e movimentos ritualísticos de luto assumem um papel central, sendo reinterpretados especulativamente pela artista de modo a convidar cada visitante para uma experiência imersiva, sensorial e participativa, onde poderá activar parte das obras expostas e tornar-se simbólica e materialmente integrante do(s) seu(s) sentido(s).
Em Relicário I, II e III, uma série de três pedestais metálicos com silhuetas que evocam instrumentos cirúrgicos ou de preservação funerária, Eva Gaspar sacraliza pequenas esculturas de silicone em que as formas do que poderiam órgãos humanos ou teratomas — quistos ou excrescências corporais, relíquias que ainda se extraem em vida — se diluem entre o visceral e o alienígena. No interior desses objectos residem fragmentos reais (dentes do siso, cabelos, etc.) provenientes da artista, de amigos seus ou familiares, que transformam cada uma destas formações no relicário que remete para um corpo e pessoa ainda vivos, onde a matéria biológica se confunde com a artificial e com um denso território composto de memórias e afectos.
Por sua vez, em Anunciação uma caixa revestida por asas negras (numa alusão à forma como as figuras de anjos são descritas na narrativa bíblica) liberta um véu contínuo de fumo perfumado de rosas que se propaga por toda a galeria. O aroma, comummente associado à presença do Espírito Santo mas também à presença energética ou fantasmática de entes falecidos, inscreve-se no espaço como um corpo invisível, envolvendo o visitante numa atmosfera suspensiva, entre a revelação, o estranhamento familiar e a ausência.
Já em Caixão duplo para um verdadeiro amor, dois caixões fundem-se numa única estrutura que convoca simultaneamente uma dimensão íntima e amorosa, mas também uma certa crítica social. Por um lado, a artista evoca o amor dos seus avós, impedidos de partilhar a mesma sepultura por razões de ordem das suas cronologias pessoais, mas também logísticas; por outro, Eva Gaspar aborda a forma como a morte é normativamente administrada, privatizada e capitalizada, seja através dos direitos de enterro ou dos procedimentos fúnebres. Numa referência formal aos caixões de zinco utilizados para retardar a decomposição em certos processos de transporte de cadáveres, os caixões da artista são aqui expostos em posição vertical e abertos de modo a convidar à entrada, convertendo um dispositivo funerário num espaço apto ao encontro e comunhão.
A exposição termina (ou inicia-se, na verdade) com Viaticum, que sintetiza e condensa toda a viagem expositiva. Aqui, um painel composto por hóstias desconsagradas provenientes de Fátima revela o desenho de uma chave, impresso com corante alimentar. Totalmente comestíveis, estas hóstias estão aqui como oferenda ao público, que é convidado a ingerir a obra, tornando-a efémera no espaço, mas durável no corpo. Assim, à medida que o painel desaparece, a obra persiste em cada visitante, transformando essa incorporação — verdadeiro ritual de passagem e acesso a uma (qualquer) outra dimensão — numa forma de extensão potencial das afectividades e horizontes críticos deste projecto.
Na origem deste projecto está um episódio familiar revelado a Eva Gaspar pela sua mãe, no qual descobre que a avó guardara, durante vários anos, numa pequena caixa, um osso do pé do seu falecido marido, avô da artista. Um gesto que fora vivido na família como algo herético ou escandaloso, mas onde Eva Gaspar reconhece um radical acto de amor e de devoção. Tal como as relíquias existentes nos espaços de culto católicos — objectos que, através de pequenos indícios materiais, operam uma ponte com uma dimensão divina e intangível —, também aquele fragmento do avô da artista funcionava como ligação directa a um corpo ausente, instaurando uma forma íntima e pessoal de espiritualidade e relação com um ente querido.
Infelizmente, esse objecto tornado sagrado pela sua avó já não existe, o que motivou Eva Gaspar, perante essa perda definitiva e consequente transformação numa espécie de mito familiar, a iniciar um processo de remediação simbólica que dá origem a Viaticum. Nesta exposição, outras relíquias íntimas, mas também gestos de partilha relacional e movimentos ritualísticos de luto assumem um papel central, sendo reinterpretados especulativamente pela artista de modo a convidar cada visitante para uma experiência imersiva, sensorial e participativa, onde poderá activar parte das obras expostas e tornar-se simbólica e materialmente integrante do(s) seu(s) sentido(s).
Em Relicário I, II e III, uma série de três pedestais metálicos com silhuetas que evocam instrumentos cirúrgicos ou de preservação funerária, Eva Gaspar sacraliza pequenas esculturas de silicone em que as formas do que poderiam órgãos humanos ou teratomas — quistos ou excrescências corporais, relíquias que ainda se extraem em vida — se diluem entre o visceral e o alienígena. No interior desses objectos residem fragmentos reais (dentes do siso, cabelos, etc.) provenientes da artista, de amigos seus ou familiares, que transformam cada uma destas formações no relicário que remete para um corpo e pessoa ainda vivos, onde a matéria biológica se confunde com a artificial e com um denso território composto de memórias e afectos.
Por sua vez, em Anunciação uma caixa revestida por asas negras (numa alusão à forma como as figuras de anjos são descritas na narrativa bíblica) liberta um véu contínuo de fumo perfumado de rosas que se propaga por toda a galeria. O aroma, comummente associado à presença do Espírito Santo mas também à presença energética ou fantasmática de entes falecidos, inscreve-se no espaço como um corpo invisível, envolvendo o visitante numa atmosfera suspensiva, entre a revelação, o estranhamento familiar e a ausência.
Já em Caixão duplo para um verdadeiro amor, dois caixões fundem-se numa única estrutura que convoca simultaneamente uma dimensão íntima e amorosa, mas também uma certa crítica social. Por um lado, a artista evoca o amor dos seus avós, impedidos de partilhar a mesma sepultura por razões de ordem das suas cronologias pessoais, mas também logísticas; por outro, Eva Gaspar aborda a forma como a morte é normativamente administrada, privatizada e capitalizada, seja através dos direitos de enterro ou dos procedimentos fúnebres. Numa referência formal aos caixões de zinco utilizados para retardar a decomposição em certos processos de transporte de cadáveres, os caixões da artista são aqui expostos em posição vertical e abertos de modo a convidar à entrada, convertendo um dispositivo funerário num espaço apto ao encontro e comunhão.
A exposição termina (ou inicia-se, na verdade) com Viaticum, que sintetiza e condensa toda a viagem expositiva. Aqui, um painel composto por hóstias desconsagradas provenientes de Fátima revela o desenho de uma chave, impresso com corante alimentar. Totalmente comestíveis, estas hóstias estão aqui como oferenda ao público, que é convidado a ingerir a obra, tornando-a efémera no espaço, mas durável no corpo. Assim, à medida que o painel desaparece, a obra persiste em cada visitante, transformando essa incorporação — verdadeiro ritual de passagem e acesso a uma (qualquer) outra dimensão — numa forma de extensão potencial das afectividades e horizontes críticos deste projecto.
David Revés & Nicolai Sarbib
EVA GASPAR (2000, Portugal)
Eva Gaspar é uma artista multidisciplinar que vive e trabalha em Lisboa. Formada em Arte Multimédia pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, o seu trabalho expande-se por formatos instalativos, recorrendo também à performance, fotografia, vídeo e escultura. Apropriando-se de objetos que medeiam a vida comum, aos quais baralha o seu propósito e contexto originais, Gaspar constrói experiências, de índole íntima e individual, mas de horizonte colectivo, que reenquadram dispositivos iconográficos, mitos e narrativas tradicionais do imaginário português e ocidental. Das exposições colectivas em que participou contam-se: 2025 “Xerazade, a Coleção Interminável do CAM” , Curadoria de Leonor Nazaré, Centro de Arte Moderna Gulbenkian; 2024 “A Festa da Arte em Rede da Região do Alentejo (FARRA)”, Coleção João Luís Traça, curadoria de Ana Cristina Cachola, Elvas; 2023 “What Comes Around Goes Around”, curadoria de Francisca Portugal e Victoria Conde ARBAG, Lisboa; 2022 “Outros Mundos”, curadoria de António Júlio Duarte and Pedro Alfacinha Pavilhão 31, Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa; 2022 “Caring is Sharing”, curadoria de Francisco Trepa, CABANAmad, Lisboa; 2022 “XXII Bienal Internacional de Cerveiral”, Vila Nova de Cerveira; 2021 “Prémio Arte Jovem Fundação Millennnium BCP, Lisboa”; entre outras. Eva Gaspar recebeu o Prémio Aquisição por Colecionador Privado na Exposição Prémio Arte Jovem da Fundação Millennium BCP (2021). O seu trabalho está presente na Coleção de Livros de Artista da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian, na Coleção Múltiplos, Carpe Diem e na Coleção João Luís Traça.
Eva Gaspar é uma artista multidisciplinar que vive e trabalha em Lisboa. Formada em Arte Multimédia pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, o seu trabalho expande-se por formatos instalativos, recorrendo também à performance, fotografia, vídeo e escultura. Apropriando-se de objetos que medeiam a vida comum, aos quais baralha o seu propósito e contexto originais, Gaspar constrói experiências, de índole íntima e individual, mas de horizonte colectivo, que reenquadram dispositivos iconográficos, mitos e narrativas tradicionais do imaginário português e ocidental. Das exposições colectivas em que participou contam-se: 2025 “Xerazade, a Coleção Interminável do CAM” , Curadoria de Leonor Nazaré, Centro de Arte Moderna Gulbenkian; 2024 “A Festa da Arte em Rede da Região do Alentejo (FARRA)”, Coleção João Luís Traça, curadoria de Ana Cristina Cachola, Elvas; 2023 “What Comes Around Goes Around”, curadoria de Francisca Portugal e Victoria Conde ARBAG, Lisboa; 2022 “Outros Mundos”, curadoria de António Júlio Duarte and Pedro Alfacinha Pavilhão 31, Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa; 2022 “Caring is Sharing”, curadoria de Francisco Trepa, CABANAmad, Lisboa; 2022 “XXII Bienal Internacional de Cerveiral”, Vila Nova de Cerveira; 2021 “Prémio Arte Jovem Fundação Millennnium BCP, Lisboa”; entre outras. Eva Gaspar recebeu o Prémio Aquisição por Colecionador Privado na Exposição Prémio Arte Jovem da Fundação Millennium BCP (2021). O seu trabalho está presente na Coleção de Livros de Artista da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian, na Coleção Múltiplos, Carpe Diem e na Coleção João Luís Traça.
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