A exposição Metanoia IV, “future imperfect” resulta da parceria internacional estabelecida com o SOL, um
espaço independente dedicado à arte contemporânea, sediado em Nexø, na ilha dinamarquesa de Bornholm. A exposição tem a curadoria de David Revés, co-director da Salto, e de Sofie Amalie Andersen, directora do SOL.
Nas últimas décadas, cenários de destruição, colapso e falha sistémica nos domínios social, político e económico passaram, de forma crescente, a dominar o espaço público. Por um lado, assistimos a uma dramatização exponencial da morte, impulsionada por conflitos armados, tensões nucleares, pandemias globais e crises migratórias. Por outro, as economias neoliberais oscilam entre colapsos financeiros e bolhas especulativas, enquanto ataques contínuos às instituições democráticas contribuem para um panorama social cada vez mais instável. Em simultâneo, a aceleração das alterações climáticas e a degradação ambiental intensificaram os alertas de que a janela para a ação coletiva se está a fechar rapidamente. À medida que entramos numa era de extinção do Antropoceno — marcada pelo colapso dos ecossistemas sociais e naturais, pela perda massiva de biodiversidade e pelo esgotamento de recursos críticos — a humanidade vê-se cada vez mais confrontada com a precariedade da sua própria existência e com o espectro iminente do desaparecimento coletivo.
Partindo destas condições de macro-escala, o projeto curatorial Metanoia recupera o significado original do termo grego antigo — uma mudança radical de pensamento — para abordar temas como a finitude e a extinção, as ruínas e a decadência, as temporalidades cumulativas e a suspensão do tempo. Iniciada por David Revés em 2023 e concebida como uma plataforma nómada em constante transformação, Metanoia procura fomentar o diálogo entre práticas, entidades, conceitos e perspetivas de naturezas diversas e, por vezes, paradoxais, com o objetivo de revelar continuidades ocultas ou intensificar zonas de tensão, gerando simultaneamente, de forma especulativa, novas formas de pensamento e relação.
Após as duas primeiras edições inaugurais em Paris e Hamburgo, as quais definiram o tom do projeto, a terceira e a quarta edições foram concebidas como uma exposição em duas partes, com curadoria de David Revés e Sofie Amalie Andersen, reunindo obras de três artistas portugueses — Adriana João, Bruno Silva e Di Lança Branco — e de três artistas dinamarqueses — Mette Rasmussen, Nicky Sparre-Ulrich e Silas Inoue.
Metanoia III – Saturated Solitude, apresentada em maio de 2025 no espaço expositivo SOL, na ilha dinamarquesa de Bornholm, marcou a primeira parte deste projeto. Em estreita articulação com os objetivos centrais do projecto Metanoia, esta exposição procurou relacionar o colapso global e planetário com histórias locais e abordagens artísticas individuais. Desde o esgotamento dos ecossistemas naturais até à erosão das identidades rurais e urbanas e ao desaparecimento de narrativas culturais, cada obra articulou um sentido distinto de solidão, em ressonância com o contexto insular do SOL, mas também com as trajetórias pessoais dos artistas e, sobretudo, com o crescente isolamento da vida contemporânea.
Na segunda versão, agora apresentada na Salto, em Lisboa, Metanoia IV: Future Imperfect retoma a maioria destas preocupações, abrindo-se simultaneamente a um campo mais instável e poroso, para nos confrontar com uma constelação de perspetivas heterogéneas sobre os confrontos, os medos e as incertezas, bem como as armadilhas, manipulações e regimes de instabilidade que permeiam a existência contemporânea. Movendo-se entre configurações que funcionam como metáforas da experiência moderna, mas também como estados de hesitação — estados melancólicos, paisagens e objetos oníricos, ou fricções expressivas entre procedimentos orientados para o futuro e formas ancestrais — a exposição percorre os regimes sensoriais e simbólicos humanos, em diálogo com narratividades e possibilidades mais-que-humanas. Aqui, a vida (ou a não-vida) que nos espera (enquanto indivíduos e enquanto humanidade) surge como uma imagem imperfeita, obscurecida, indeterminada e resistente à antecipação ou à estabilização, não se resolvendo com qualquer promessa, nem colapsando perante uma catástrofe absoluta, mas antes permanecendo suspensa num estado persistente de nebulosidade. E, ainda assim, embora um desfecho distópico possa parecer cada vez mais plausível, e ainda que essa presença espectral continuamente paire sobre a exposição, um resíduo de brilho — frágil, descontínuo e indefinido — pode continuar a cintilar, lançando uma luz ténue desde o virar da esquina.
espaço independente dedicado à arte contemporânea, sediado em Nexø, na ilha dinamarquesa de Bornholm. A exposição tem a curadoria de David Revés, co-director da Salto, e de Sofie Amalie Andersen, directora do SOL.
Nas últimas décadas, cenários de destruição, colapso e falha sistémica nos domínios social, político e económico passaram, de forma crescente, a dominar o espaço público. Por um lado, assistimos a uma dramatização exponencial da morte, impulsionada por conflitos armados, tensões nucleares, pandemias globais e crises migratórias. Por outro, as economias neoliberais oscilam entre colapsos financeiros e bolhas especulativas, enquanto ataques contínuos às instituições democráticas contribuem para um panorama social cada vez mais instável. Em simultâneo, a aceleração das alterações climáticas e a degradação ambiental intensificaram os alertas de que a janela para a ação coletiva se está a fechar rapidamente. À medida que entramos numa era de extinção do Antropoceno — marcada pelo colapso dos ecossistemas sociais e naturais, pela perda massiva de biodiversidade e pelo esgotamento de recursos críticos — a humanidade vê-se cada vez mais confrontada com a precariedade da sua própria existência e com o espectro iminente do desaparecimento coletivo.
Partindo destas condições de macro-escala, o projeto curatorial Metanoia recupera o significado original do termo grego antigo — uma mudança radical de pensamento — para abordar temas como a finitude e a extinção, as ruínas e a decadência, as temporalidades cumulativas e a suspensão do tempo. Iniciada por David Revés em 2023 e concebida como uma plataforma nómada em constante transformação, Metanoia procura fomentar o diálogo entre práticas, entidades, conceitos e perspetivas de naturezas diversas e, por vezes, paradoxais, com o objetivo de revelar continuidades ocultas ou intensificar zonas de tensão, gerando simultaneamente, de forma especulativa, novas formas de pensamento e relação.
Após as duas primeiras edições inaugurais em Paris e Hamburgo, as quais definiram o tom do projeto, a terceira e a quarta edições foram concebidas como uma exposição em duas partes, com curadoria de David Revés e Sofie Amalie Andersen, reunindo obras de três artistas portugueses — Adriana João, Bruno Silva e Di Lança Branco — e de três artistas dinamarqueses — Mette Rasmussen, Nicky Sparre-Ulrich e Silas Inoue.
Metanoia III – Saturated Solitude, apresentada em maio de 2025 no espaço expositivo SOL, na ilha dinamarquesa de Bornholm, marcou a primeira parte deste projeto. Em estreita articulação com os objetivos centrais do projecto Metanoia, esta exposição procurou relacionar o colapso global e planetário com histórias locais e abordagens artísticas individuais. Desde o esgotamento dos ecossistemas naturais até à erosão das identidades rurais e urbanas e ao desaparecimento de narrativas culturais, cada obra articulou um sentido distinto de solidão, em ressonância com o contexto insular do SOL, mas também com as trajetórias pessoais dos artistas e, sobretudo, com o crescente isolamento da vida contemporânea.
Na segunda versão, agora apresentada na Salto, em Lisboa, Metanoia IV: Future Imperfect retoma a maioria destas preocupações, abrindo-se simultaneamente a um campo mais instável e poroso, para nos confrontar com uma constelação de perspetivas heterogéneas sobre os confrontos, os medos e as incertezas, bem como as armadilhas, manipulações e regimes de instabilidade que permeiam a existência contemporânea. Movendo-se entre configurações que funcionam como metáforas da experiência moderna, mas também como estados de hesitação — estados melancólicos, paisagens e objetos oníricos, ou fricções expressivas entre procedimentos orientados para o futuro e formas ancestrais — a exposição percorre os regimes sensoriais e simbólicos humanos, em diálogo com narratividades e possibilidades mais-que-humanas. Aqui, a vida (ou a não-vida) que nos espera (enquanto indivíduos e enquanto humanidade) surge como uma imagem imperfeita, obscurecida, indeterminada e resistente à antecipação ou à estabilização, não se resolvendo com qualquer promessa, nem colapsando perante uma catástrofe absoluta, mas antes permanecendo suspensa num estado persistente de nebulosidade. E, ainda assim, embora um desfecho distópico possa parecer cada vez mais plausível, e ainda que essa presença espectral continuamente paire sobre a exposição, um resíduo de brilho — frágil, descontínuo e indefinido — pode continuar a cintilar, lançando uma luz ténue desde o virar da esquina.
David Revés
Adriana João (Portimão, 1998) vive e trabalha em Lisboa. Iniciou os seus estudos musicais em 2005 no Conservatório de Portimão Joly Braga Santos, onde estudou violino até 2013. Frequentou a Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, onde se licenciou em Arte Multimédia – Performance / Instalação, e se pós-graduou tanto em Arte Sonora como em Arte Multimédia – Imagem em Movimento.
O seu trabalho transdisciplinar e intuitivo mescla- se entre o som, a imagem em movimento, a performance, a escultura, a fotografia e a instalação. Emerge de subtis coincidências presentes no perpétuo vínculo imaterial entre tudo o que existe, que pairam por entre perfeitos e imperfeitos ciclos entrelaçados, e padrões que derivam das tangentes comuns.
Bruno Silva (Vila Nova de Gaia, 1986) O seu é dúplice: fala de função e disfunção e procura ligar o vivo e o inerte. Rodeando-se do que existe num estado de limbo - objectos abandonados, residuais, representações de superfícies - ele convoca a fisicalidade dos corpos num jogo entre aparência e substância. Exposições recentes: "mykiss", Creux de l’enfer (Thiers, 2022); "Sobre o céu não sabemos nada", Paralaxe, Observatório Astronómico Prof. Manuel de Barros (Vila Nova de Gaia 2022); "Half Park", In extenso (Clermont-Ferrand, 2021); “Corpos Celestes”, Galeria Municipal de Loulé (2023).
Di Lança Branco (n. 1993) cresceu entre Lisboa e o campo, formando-se na Escola de Belas Artes de Lisboa em 2015. A artista explora som, performance e escrita em detrimento do seu percurso anterior na pintura e desenho. Concentrada em experimentações mais do que em corpos de trabalho altamente polidos ou finalizados, a sua investigação baseia-se em pensar (ou repensar) de que forma a comunicação pode ser um meio real para alcançar um sentido de comunidade, integridade e plenitude. Com uma perspectiva queer sempre presente no seu trabalho e nos seus modos de produção, seja a solo ou em parceria, Di coloca o cuidado, o afeto e a comunidade como objetivos centrais de cada projeto. Exposições colectivas: A Hunted Time, Casa do Capitão (2021); 7ª edição de Abertura de Ateliers de artistas, Hemisfério, Lisboa (2016); XXVIII Salão de Primavera, na galeria de arte do Casino Estoril, Cascais (2015); Cast a Cold Eye, no Museu Condes de Castro Guimarães, Cascais (2015).
Nicky Sparre-Ulrich (n. 1986) cresceu em Bornholm, onde vive e trabalho. Formado na Real Academia Dinamarquesa de Belas Artes em 2017. O seu universo pictórico aproxima-se de aspectos inquietantes da natureza quotidiana e do espaço urbano, como vislumbres de contos míticos dos quais normalmente nos distanciamos. Nicky interessa-se também pelas trocas que são constantemente criadas e activadas entre diferentes culturas, tanto em um nível metafórico quanto físico, procurando uma tradição da história da arte que se articula e activamente se questiona.
Mette Rasmussen (n. 1993) formou-se na Academia de Arte de Funen em 2020 e vive e trabalha em Bornholm desde 2019. A sua prática baseia-se na escultura, recortes de imagens e texto. O folclore nórdico e as criaturas e fenómenos naturais a ele associados, como trolls, duendes e elfos, formam um ponto temático e estético de suas obras, através de uma investigação do inconsciente e das ansiedades contemporâneas. A artista trabalha a narrativa como forma mas também como base para uma compreensão não linear da história, traçando fios emaranhados através do tempo e do espaço, entre a fantasia de um passado pagão e mágico e um presente alienante.
Silas Inoue (n. 1981) é um artista dinamarquês/japonês que cresceu em Bornholm e se formou na Escola de Design da Real Academia Dinamarquesa de Belas Artes em 2010. Silas Inoue trabalha o campo de tensão entre o minucioso e o monstruoso, através de um prática de escultura e desenho que frequentemente combina o mais tradicional com o não convencional, onde materiais clássicos como papel, madeira e bronze encontram o plástico, açúcar, óleo de fritura, fungos e outros organismos vivos, criando um universo multifacetado, caracterizado por uma abordagem à natureza, a mitos e rituais ancestrais, assim como à tecnologia.
O seu trabalho transdisciplinar e intuitivo mescla- se entre o som, a imagem em movimento, a performance, a escultura, a fotografia e a instalação. Emerge de subtis coincidências presentes no perpétuo vínculo imaterial entre tudo o que existe, que pairam por entre perfeitos e imperfeitos ciclos entrelaçados, e padrões que derivam das tangentes comuns.
Bruno Silva (Vila Nova de Gaia, 1986) O seu é dúplice: fala de função e disfunção e procura ligar o vivo e o inerte. Rodeando-se do que existe num estado de limbo - objectos abandonados, residuais, representações de superfícies - ele convoca a fisicalidade dos corpos num jogo entre aparência e substância. Exposições recentes: "mykiss", Creux de l’enfer (Thiers, 2022); "Sobre o céu não sabemos nada", Paralaxe, Observatório Astronómico Prof. Manuel de Barros (Vila Nova de Gaia 2022); "Half Park", In extenso (Clermont-Ferrand, 2021); “Corpos Celestes”, Galeria Municipal de Loulé (2023).
Di Lança Branco (n. 1993) cresceu entre Lisboa e o campo, formando-se na Escola de Belas Artes de Lisboa em 2015. A artista explora som, performance e escrita em detrimento do seu percurso anterior na pintura e desenho. Concentrada em experimentações mais do que em corpos de trabalho altamente polidos ou finalizados, a sua investigação baseia-se em pensar (ou repensar) de que forma a comunicação pode ser um meio real para alcançar um sentido de comunidade, integridade e plenitude. Com uma perspectiva queer sempre presente no seu trabalho e nos seus modos de produção, seja a solo ou em parceria, Di coloca o cuidado, o afeto e a comunidade como objetivos centrais de cada projeto. Exposições colectivas: A Hunted Time, Casa do Capitão (2021); 7ª edição de Abertura de Ateliers de artistas, Hemisfério, Lisboa (2016); XXVIII Salão de Primavera, na galeria de arte do Casino Estoril, Cascais (2015); Cast a Cold Eye, no Museu Condes de Castro Guimarães, Cascais (2015).
Nicky Sparre-Ulrich (n. 1986) cresceu em Bornholm, onde vive e trabalho. Formado na Real Academia Dinamarquesa de Belas Artes em 2017. O seu universo pictórico aproxima-se de aspectos inquietantes da natureza quotidiana e do espaço urbano, como vislumbres de contos míticos dos quais normalmente nos distanciamos. Nicky interessa-se também pelas trocas que são constantemente criadas e activadas entre diferentes culturas, tanto em um nível metafórico quanto físico, procurando uma tradição da história da arte que se articula e activamente se questiona.
Mette Rasmussen (n. 1993) formou-se na Academia de Arte de Funen em 2020 e vive e trabalha em Bornholm desde 2019. A sua prática baseia-se na escultura, recortes de imagens e texto. O folclore nórdico e as criaturas e fenómenos naturais a ele associados, como trolls, duendes e elfos, formam um ponto temático e estético de suas obras, através de uma investigação do inconsciente e das ansiedades contemporâneas. A artista trabalha a narrativa como forma mas também como base para uma compreensão não linear da história, traçando fios emaranhados através do tempo e do espaço, entre a fantasia de um passado pagão e mágico e um presente alienante.
Silas Inoue (n. 1981) é um artista dinamarquês/japonês que cresceu em Bornholm e se formou na Escola de Design da Real Academia Dinamarquesa de Belas Artes em 2010. Silas Inoue trabalha o campo de tensão entre o minucioso e o monstruoso, através de um prática de escultura e desenho que frequentemente combina o mais tradicional com o não convencional, onde materiais clássicos como papel, madeira e bronze encontram o plástico, açúcar, óleo de fritura, fungos e outros organismos vivos, criando um universo multifacetado, caracterizado por uma abordagem à natureza, a mitos e rituais ancestrais, assim como à tecnologia.
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