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Em Know Who You Are At Every Age, cinco artistas entrelaçam os fios da experiência interior com o mundo exterior. De diários a sonhos e rituais tanto pessoais quanto colectivos, a diversidade de práticas na exposição reúne reflexões íntimas. O título, emprestado do álbum Four-Calendar Café dos Cocteau Twins, surge não apenas como um convite discreto ao auto-reconhecimento e ao cuidado, mas também para considerar o estranhamento e as mudanças incessantes de como nos relacionamos uns com os outros.

 No centro desta exposição está uma tensão crescente, o paradoxo da hiperconectividade contemporânea. Numa era em que experiências pessoais são constantemente transmitidas, reduzidas a pixeis, gostos e métricas, a intimidade real e disponibilidade emocional parecem cada vez mais evasivas. As obras aqui apresentadas não pretendem resolver essa contradição. Pelo contrário, habitam-na, expondo as fronteiras difusas entre o eu e o que o rodeia, entre a solidão e a sociabilidade, a exposição e a invisibilidade. 

Em O Mito de Sísifo, Albert Camus descreve o momento em que “o absurdo” se revela, não através de uma grande catástrofe, mas no colapso silencioso do sentido, quando as rotinas do quotidiano perdem a sua coerência e o mundo nos aparece, subitamente, estranho e incompreensível. Essas meditações sobre a alienação ecoam nesta exposição, não como conclusões sombrias, mas como pontos de partida para uma investigação sobre o significado e a identidade. As artistas oferecem vislumbres de territórios emocionais moldados pelo desejo, pela incerteza e por uma resiliência íntima. Estas obras não são confissões, mas fragmentos, observações que resistem ao encerramento ou à catarse fácil. 

Apesar de uma certa corrente melancólica, há leveza nas obras, uma delicadeza no tom, um humor irónico ou um charme estranho que evocam uma sinceridade que nos é pouco habitual. Estas são obras que reconhecem a vulnerabilidade como uma postura estética e política, e não apenas como um tema. 

Numa sociedade que recompensa a intimidade apenas como performance, cuidar (de si, dos outros, do fazer) torna-se um acto radical. As artistas aqui presentes praticam esse cuidado nos seus gestos, partilham sem sobre-expor, constroem mundos sem reivindicar universalidade. Convidam-nos não apenas a olhar, mas a permanecer, a estar com o desconforto, com o inacabado, com o emocionalmente carregado.

 Na justaposição de meios e perspectivas, Know Who You Are At Every Age transforma-se numa pequena constelação de verdades subjectivas. Estas são histórias contadas não por grandes gestos, mas pelas margens, nos rabiscos, nos olhares, nas imagens, na documentação e nos mundos imaginários. E, ao fazê-lo, a exposição oferece um contraponto ao espectáculo da identidade, propondo antes uma cartografia introspectiva do sentir, um espaço onde mitologias pessoais se desenrolam e nos convidam a partilhar. 


Nicolai Sarbib
CATARINA REAL (1992, Barcelos) 
Trabalha na intersecção entre a prática artística e a investigação teórica nos campos expandidos da pintura, escrita e coreografia, maioritariamente em projectos colaborativos de longa duração, que se debruçam sobre o questionamento de como podemos viver melhor colectivamente.Mantém uma prática de comentário - nas vertentes de textos de reflexão, textos introdutórios a exposições, entrevistas e moderação de conversas - às obras e processos realizados pelos artistas na sua faixa geracional, com a intenção de contribuir para um ambiente salutar de crítica e criação colectiva e comunitária. É vice-presidente da associação francesa Artistes en Résidence desde 2019 e editora em Edições da Ruína desde 2022. Apresentou publicamente o seu trabalho em instituições tais como Teatro Municipal do Campo Alegre, Galeria Municipal do Porto, Museu Amadeo de Souza-Cardoso, etc.; espaços independentes tais como Rua do Sol, Campanice, Graciosa, Laboratório das Artes, Sol Pele, etc.; e galerias como Kubik Gallery, Galeria Madragoa, No.no Gallery e Galeria Graça Brandão. Realizou residências no Espaço do Tempo, Gnration, Appleton Square, Fórum Dança, Residency Unlimited, Flux Factory, Artistes en Résidence, etc. 

LUCREZIA BRACCI (1997, Roma) 
Lucrezia Bracci é uma artista italiana que vive e trabalha em Lisboa. O seu trabalho explora metafisicamente a natureza humana, o movimento e a percepção. Com formação em Belas-Artes pela Bath School of Art and Design, desenvolveu uma prática escultórica que investiga a relação simbiótica entre o corpo humano e as forças invisíveis que moldam as nossas realidades físicas e espirituais. Lucrezia expôs em Lisboa e no Estoril, incluindo na Lx Lapa e no Creative Hub Beato, tendo obras em coleções privadas em Lisboa, Porto e Roma.
MARIA MARQUES MODERNO (2003, Portimão) 
Maria Moderno é uma artista multidisciplinar que vive actualmente em Lisboa. Concluiu a Licenciatura em Escultura na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa em 2024. Frequentou um semestre na  École Supérieure des Arts Saint-Luc Liège, Bélgica, através do programa de mobilidade da Universidade de Lisboa. O seu trabalho foca-se em temas como o luto, a memória, a morte e o amor. Através do campo expandido da escultura desenvolve peças com recurso aos mais diversos materiais, criando ambientes de uma plasticidade intimista.


MARIA MIGUEL CAFÉ
Maria Miguel Café é uma artista multidisciplinar e web designer residente em Lisboa, cujo trabalho se centra na memória, arquivo e identidade, explorando suportes como performance, instalação e vídeo. Licenciada em Arte Multimédia pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, frequentou o Mestrado em Estética e Estudos Artísticos na Universidade Nova de Lisboa concluiu recentemente uma pós-graduação em Web UI/UX no IADE. Expôs na exposição “Temporary Zone” na Fundação CGD e na Casa das Histórias Paula Rego. 


MARIANA MALHEIRO (1995, Lisboa) 
Trabalhando essencialmente com o desenho e a pintura a óleo, Mariana Malheiro (1995) desenvolve obras cujas narrativas se debruçam sobre relações humanas e convenções sociais, onde são frequentemente representados momentos de comunhão e lazer, tendo a figura feminina como protagonista. Estudou pintura na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa na Kunsthochschule Kassel (Alemanha). Conta com exposições individuais no Espaço Cultural Mercês (2024), na Casa do Comum (2024) e na Rua das Gaivotas 6 (2022). Participou em exposições coletivas em L’appartment 49c em Nova Iorque, na Galeria Monitor (2024) Sociedade Nacional de Belas-Artes (2024), Brotéria (2023) em Lisboa, no Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas (2022) Açores , Galeria Alga (2021) Lagos, Galeria Valbom (2019), Pavilhão 31 do C.H.P. Júlio de Matos (2017) em Lisboa, entre outros. O seu trabalho já foi incluindo em publicações como Umbigo Magazine 88, DOSE 11, e Portuguese Emerging Artists 2023. Participou em 2024 na residência artística Kunstraum LLC em Nova Iorque, com o apoio da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. O seu trabalho está representado na coleção da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e em coleções privadas em Portugal, Estados Unidos e Brasil.