SALTO

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Rocha, matéria, cimento, concreto. Dureza variável mas sempre suporte e quase sempre realidade.

A prática artística da Beatriz tem vindo a focar-se, desde o seu início, numa ressignificação atenta do banal e na criação de um ideário estético baseado naquilo que é muitas vezes ignorado, ou que facilmente passa despercebido ao olho menos atento. Este olhar irreverente sobre o real, é relevante para percebermos as imagens da exposição intitulada “Chão”, a sua primeira exposição individual na cidade onde vive e trabalha, onde acabamos por encontrar precisamente uma fuga a esse contexto e a procura de um outro mais permeável à reinvenção.

As imagens seleccionadas pela Beatriz, fruto de uma viagem às ilhas de Cabo Verde, tornam impossível dissociarmo-nos do lugar em questão e de uma ausência latente em todas elas. Mostram- nos edificações semi-acabadas, meio enterradas, meio à superfície. Corpos de pedra, provenientes de uma arquitetura que procura emancipar-se e criar uma linguagem própria, reflexo de um território ainda num longo e natural processo de descolonização. O interesse pelos complexos arquitectónicos, acentua a ausência de corpos humanos, levando-nos à primeira vista a pensar num território fantasma, inabitado e quase pós-apocalíptico. Não existem pessoas, apenas o solo vulcânico e os corpos arquitectónicos construídos sobre o terreno seco e árido do arquipélago, evocativos da sua presença. Este não é um trabalho sobre as pessoas, uma tentativa de reescrever a história ou sequer contextualizá-la. O seu cerne assenta na realidade do visível e de que forma isso pode contribuir para um questionamento interno, fruto da relação estabelecida com um território novo e ainda desconhecido. Uma espécie de conversa, onde a exploração do território é feita caminhando.

O céu, o chão e o que está entre eles é-nos sempre oferecido em todas as imagens. São estes os elementos necessários para que possamos aperceber-nos do espaço, e com isso sermos presos àquilo que é simplesmente ser-se, ali. O vulcão (da ilha do Fogo), corpo pulsante e em iminente explosão, representa uma realidade natural abstraída da presença humana, um chão que esconde atividade que não conseguimos testemunhar mas sabemos existir. E é este chão, que encerra em si simultaneamente a transversalidade e a individualidade, ainda que pisado por todos, permite situarmo-nos momentaneamente num ponto geográfico único e irrepetível, que nos situa perante todos os restantes referentes. Acredito que seja precisamente isto que a Beatriz procura fazer com este conjunto — olhar o outro enquanto se olha a si.

A poeira levanta e a dúvida é entre ir ou ficar. Pertencer ou não pertencer. Existir ou não existir. A dúvida impera mas também ela é capaz de construir.



Gonçalo C. Silva
BEATRIZ BANHA (1995, Évora)

Beatriz Banha licenciou-se em Fotografia pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias em 2019. Em 2021 foi uma das participantes do festival Circulation(s) em Paris e finalista na Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira. Entre 2020 e 2021, ingressou no Curso de Projecto do Atelier de Lisboa, resultando na exposição “Duas Águas” n’A Ilha em Lisboa.