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Christine HenryBeira Mágoa


02 Mai — 27 Jun 2026

Curadoria: David Revés & Nicolai Sarbib

Beira Mágoa traz a Lisboa o trabalho de Christine Henry — artista de origem francesa, nascida no Porto em 1958 e radicada no Algarve desde 1981 —, sendo a sua mais recente exposição individual na cidade (as anteriores em 2012 e 1998), num percurso marcado por projectos realizados maioritariamente no Algarve. Esta exposição assinala ainda o segundo momento da parceria estabelecida entre a Salto e a Associação Alfaia (Loulé), uma colaboração anual que pretende estabelecer uma ponte entre os contextos algarvio e lisboeta, interrogando a assimetria das relações de visibilidade, acesso e representação entre os seus territórios, circuitos e agentes artísticos. 

Entre objectos produzidos e encontrados, entre o humano e o animal, o orgânico e o industrial, o natural e o sintético, as obras reunidas em Beira Mágoa habitam um espaço incerto e difícil de estabilizar. Crânios de baleias que poderiam ser estranhas máscaras rituais ou objectos sagrados; filtros de automóvel que sugerem sistemas de respiração ou seres mecânicos imaginários; um tabuleiro com óleo industrial que quase poderia reflectir um insondável fundo oceânico; balaclavas de corda cuja origem e função são difíceis de determinar. Cada elemento desta exposição oscila entre o utensílio e o vestígio, o detrito e a relíquia, persistindo uma certa apetência de artefacto simbólico, preservado por um processo de atribuição de valor, mas também de matéria residual que parece ter sobrevivido a infindáveis processos de soterramento, erosão e deslocação. 

Contudo, a instabilidade das obras que Christine Henry situa-se igualmente numa dimensão temporal. Pois a artista trata cada um dos objectos e substâncias com os quais trabalha como se pertencessem a uma espécie de arqueologia futura, convocando várias cronologias e experiências. Cada elemento e entidade aqui presentes funcionam como repositórios de processos que se anunciam, ou que estão já em curso, englobando indistintamente o mundo humano e mais-que-humano, e fazendo com que as categorias que usamos para os organizar — natureza e cultura, identidade e alteridade — se tornem pouco úteis e perecíveis. Nas palavras da artista: “sabemos que as etiquetas que constroem nossas identidades não são reais. Podem cair a qualquer momento como máscaras em decomposição”.

O tom de pesar e melancolia expresso pelo título, assim como o movimento de aproximação ou iminência que carrega, e que podem ser lidos como um comentário aos efeitos de devastação planetária do Antropoceno e ao colapso de uma certa ideia de sociedade baseada na Modernidade e Progresso, não descrevem apenas um diagnóstico do contexto actual feito por Christine Henry, como são também a vontade de criação de um espaço de atenção e abertura para uma ecologia-outra. Aquela que permite especulativamente projectar uma relação mais horizontal entre corpos, matérias e agências, estados e circunstâncias e um entendimento dos ritmos de criação e destruição, transformação e metamorfose, vida e morte, como dimensões radicalmente integrantes da existência. 


David Revés & Nicolai Sarbib
CHRISTINE HENRY

Nascida no Porto, em 1958, de pais franceses. Vive no Algarve desde 1981. Pós-graduada em Artes e 
Programação Cultural no INUAF, Loulé, em 2006. Fez parte do projecto Mobilehome- Escola de Arte Nómada, Experimental e Independente, com coordenação de Nuno Faria, em 2009. O seu trabalho explora diferentes meios de criação artística, tais como a fotografia, pintura, escultura, instalação e vídeo, de forma a abordar 
binómios tensionais como Natureza/Homem, Natureza/História, Ausência/Presença e Impermanência, numa tentativa de trazer à superfície a profundidade dos mecanismos quotidianos das nossas percepções. As obras que apresenta são fragmentos de um só puzzle, desdobramentos do mundo ora na sua beleza e simplicidade, ora na sua complexidade e violência. Expõe em Portugal e no estrangeiro desde 2000.

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